Sobre oito rodas: uma vida na patinação

Não é sempre que se encontra uma pessoa que realizou um sonho de infância, mas eu tive a chance de conhecer alguém assim. Juliana Bicalho, minha entrevistada, encontrou sua realização profissional no esporte, em uma modalidade pouco conhecida no Brasil. A patinação artística é bastante praticada nos países do Hemisfério Norte, e conhecida como a menina dos olhos das Olimpíadas de Inverno.

Aqui no Brasil, pelo motivo evidente de fazer calor praticamente o ano todo, a patinação artística é praticada sobre rodas. Mas mantém a mesma união entre esporte e arte presente na patinação no gelo – em apresentações individuais ou em dupla, jurados levam coreografia e adequação à música em conta na hora de atribuir notas aos atletas.

Juliana conheceu a patinação na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), em São Paulo, quando tinha sete anos. Com a carteirinha do clube, ela podia praticar todos os esportes que eram oferecidos. Começou a patinar duas vezes por semana e essa logo se tornou a prioridade, de forma que em pouco tempo Juliana treinava todos os dias. Desse contato desde cedo com o esporte, surgiu um plano de vida.

Juliana na Associação Atlética Banco do Brasil, 1974

Também foi na AABB que Juliana conheceu seu marido, e, seis meses depois que os dois começaram a namorar, ele foi morar em Londrina. “Dois anos depois, quando a gente resolveu casar, ele falou para mim, ‘Olha, a gente vai casar, mas não tem patinação em Londrina, você vai ter que abandonar’. E eu respondi, ‘Não tem problema, eu vou fazer a patinação lá’. Eu falei nesses termos mesmo (risos).”

Primeiros passos – Quando chegou em Londrina, em 1989,  os clubes eram centros de lazer, cultura e socialização – e também possíveis locais para Juliana começar a dar aulas de patinação. “Eu visitei todos os clubes, escolhi três para apresentar uma proposta, e desses o Canadá Country Club me chamou. Quando o pessoal da AABB soube que consegui um lugar para dar aulas, eu ganhei um show de inauguração de presente deles. No intervalo do show, me apresentaram como nova professora do Canadá.” Dez dias depois dessa apresentação, em 28 de novembro, Juliana começava as aulas de sua primeira turma de alunos.

Primeira turma de alunos de Juliana

“Olha que data ruim para começar! Ninguém quer nada com nada no fim do ano. E, para nossa surpresa, já tinha 30 crianças interessadas em fazer patinação. Começamos a escolinha, e naquela época eu cheguei à conclusão de que estava no lugar certo, na hora certa. Patinação era uma coisa nova na cidade, não tinha. Eu sou a fundadora do esporte em Londrina.”

Sede própria – Juliana deu aulas no Canadá Country Club por seis anos. Depois, alugou um terreno, onde construiu um barracão e ensinou patinação lá por quase vinte anos. Faz apenas seis anos que sua escola, a Dancing Patinação, tem uma sede própria na Av. Harry Prochet.  “Eu adoro este local”, contou ela com o sorriso largo, enquanto olhava em volta. Pude ir até sua escola para fazer a entrevista, em um horário livre, sem alunos presentes.  “Sempre que passava por aqui, eu pensava, ‘Nossa, eu adoro este bairro, queria ter escola aqui’. Um dia, eu estava lendo o jornal e tinha uma licitação para este terreno, que era da Sercomtel. Eu me inscrevi, e nós ganhamos a licitação.”

Fachada da sede da Dancing Patinação

A sorte sorriu mais uma vez para Juliana quando soube o número do terreno: 777. “Aqui é meu presente, porque o endereço é 777, e meu nome também tem sete letras: Juliana Bicalho Sanches. E quando fui escolher o nome Dancing, também tinha sete letras, então eu gostei. Era para ser, eu acho.”

A Dancing Patinação também é especial por outro motivo: a sede foi construída para atender exclusivamente as demandas do esporte. “Todos os meus colegas, professores de patinação, trabalham dentro de clubes ou escolas. Aqui é a única escola particular, própria, construída só para a patinação no país.” A pista para treinos é a maior que o terreno e a legislação permitiram, com 504 m².

As conquistas de Juliana vão além da construção da sua escola. “Fui atleta, depois coreógrafa, técnica, dirigente – eu fundei a Federação Paranaense de Patinação, fui vice-presidente da Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação. Atuei em várias facetas do esporte. Dizem que você precisa de quatro, oito mil horas de exercício profissional para ser um especialista numa área. Lendo essas teorias, hoje eu me considero uma especialista em patinação.”                

Depois de uma vida inteira de dedicação ao esporte, aos alunos e à escola, também podemos considerar Juliana como uma exceção: alguém que sabia onde queria chegar, e que conseguiu.

Imagens: Acervo Juliana Bicalho; Foto de capa e texto: Lívia Seneda

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